A Justiça de São Paulo aceitou denúncia do Ministério Público e tornou réu, por estupro de vulnerável, o terapeuta Tadashi Kadomoto, que atua em todo o Brasil e já recebeu dezenas de milhares de pessoas em seus cursos e treinamentos.

Tadashi Kadomoto é acusado por uma ex-aluna. De acordo com a reportagem da  GloboNews, outras mulheres que também se dizem vítimas do terapeuta procuraram a emissora.

Tadashi Kadomoto é conhecido como “guru da meditação na pandemia”. Suas lives em redes sociais costumam atrair milhares de seguidores com mensagens de autoconhecimento.

Ele também atua há quase 30 anos fazendo terapia transpessoal, que usa hipnose, meditação, regressão e relaxamento.

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Em nota, a defesa de Kadomoto afirmou que “em toda a sua reconhecida trajetória profissional, jamais recebeu solicitação de esclarecimento sobre qualquer fato e nenhuma denúncia formal até o momento”.

Uma ex-aluna e também paciente de Tadashi Kadomoto procurou o Ministério Público no fim do ano passado para fazer a denúncia.

Ela contou que foi estagiária no instituto que leva o nome do terapeuta e que também buscou atendimento em uma clínica dele para tratar distúrbios alimentares.

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A mulher afirmou que foi vítima de vários abusos sexuais durante 7 anos de tratamento e treinamento. Depois de ouvir testemunhas e coletar provas, a Promotoria denunciou o terapeuta, que responderá na Justiça por 5 estupros.

O advogado da vítima, Luiz Flávio D’Urso, afirmou que os problemas dela pioraram com os abusos.

“Em vez de melhorar, ela piora… Piora a anorexia, não encontra o conforto buscado. Pelo contrário, ela encontra uma angústia que se amplia. Ela não via nada, estava totalmente envolvida por ele e foi vítima de abusos sexuais. Isso tudo aconteceu sem a consciência dela e sem nenhuma capacidade de resistência”, disse.

LESÃO CORRPORAL

Além de estupro de vulnerável, Tadashi Kadomoto também foi acusado de lesão corporal grave pelos danos psiquiátricos causados a ela.

O terapeuta poderá se defender no processo, que entra em uma nova fase de investigação. Caberá à Justiça ouvir as partes e julgar se ele é culpado pelos crimes.

A promotora responsável pelo caso, Celeste Leite dos Santos, afirmou que o terapeuta se aproveitou do momento vulnerável da vítima.

“Foi de uma forma progressiva… Começou com um toque, depois troca de e-mails, até que ele consumou, quando ela não tinha a menor capacidade de assumir resistência, o ato sexual, não respeitando sequer o fato de que a vítima estava grávida.”

“Ele tinha ciência que ela tinha distúrbios alimentares. E em vez de ser fonte de tratamento, ele foi agravando todos esses problemas para poder atingir o seu objetivo, que era o mesmo desde o princípio: obter conjunção carnal com a vítima”, disse a promotora.

OUTROS CASOS

Na última semana, a reportagem da GloboNews e do Fantástico foi procurada por algumas mulheres que foram atendidas por Tadashi Kadomoto e também dizem ter sido vítimas de abusos sexuais.

“Apesar de eu ter sofrido um estupro quando era criança, vejo que minha história com o Tadashi foi mais traumática”, disse uma delas em depoimento ao Ministério Público.

“A primeira vez que eu percebi que a abordagem estava inadequada foi em 2007, quando eu terminei o meu curso de formação de expansão de consciência e ele me convidou para estagiar nesse mesmo curso. Eu me senti a pessoa mais especial do mundo. Em um dos dias desse treinamento, a gente assiste a alguns filmes que têm a ver com o contexto que está sendo estudado”, contou a mulher.

O relato prossegue:

“Em um desses filmes, ele deitou no meu colo e começou a acariciar a minha perna, a minha coxa. Eu achei aquilo muito estranho e congelei. E ele foi subindo a mão pela minha coxa. Quando ele chegou com a mão perto da minha virilha, tive um ímpeto e tirei a mão dele e saí de perto.”

Ela afirmou que os abusos teriam continuado em 2010.

Segundo relatos das vítimas, a maior parte dos abusos ocorreu durante o treinamento chamado “expansão de consciência”.

“Quando você entra no ‘expansão’, ele realmente é de uma profundidade enorme. Você está sem muro, sem arma, ao que vier. Principalmente de uma pessoa como ele, que é super forte”, relatou uma mulher que passou pelo curso.

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“Principalmente nesse curso, a gente fica muito aberto. A vulnerabilidade fica extrema. A pessoa precisa estar em terapia constante, porque ele realmente mexe muito com as nossas vulnerabilidades, nossos traumas, nossas feridas.”

Mensagens e declarações de amor

Os abusos e as investidas para um contato mais íntimo não teriam ficado restritos aos cursos e aos atendimentos no consultório de Tadashi Kadomoto. As mulheres que conversaram com a reportagem da GloboNews e do Fantástico contam que recebiam mensagens e e-mails do terapeuta, com declarações de amor e de cunho sexual.

O que disse uma delas:

“Ele começou a me perguntar como estava sendo meu processo. Na época, eu tinha acabado de me separar, foi uma separação bem traumática para mim, e ele me mandou um e-mail perguntando como estava sendo meu processo. Começou primeiro a me elogiar muito. Dizer que eu era linda, que eu era maravilhosa, que eu era suculenta. Pediu fotos minhas para que ele ficasse me admirando. Dizia que me queria cada vez mais perto dele e inclusive chegando a afirmar que me amava”.

Uma mensagem enviada a outra aluna diz o seguinte: “Confesso que gostaria de poder te agarrar… beijar… morder… para demonstrar o meu amor. Mas, por enquanto, contento em demonstrar meu amor assim”.

Nota enviada pela defesa
Tadashi Kadomoto se manifestou em nota sobre as acusações, enviada pelo advogado Alexandre Wunderlich.

“Tadashi Kadomoto atua há mais de 30 anos na área de treinamento comportamental, já tendo apoiado cerca de 100 mil pessoas, por meio de palestras e treinamentos motivacionais. São numerosos e públicos os depoimentos que comprovam a sua atuação. Durante a pandemia, promoveu, de forma gratuita, lives para a ajudar milhares de pessoas a atravessar esse período tão desafiador para todos nós. Em toda a sua reconhecida trajetória profissional, jamais recebeu solicitação de esclarecimento sobre qualquer fato e também não recebeu nenhuma denúncia formal até o momento”, diz o texto.

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