O nadador e ultramaratonista aquático, Ulisses Utida, 36 anos, treina para se tornar o primeiro sul-americano a cruzar o Estreito de Tsugaru – trecho de 19,5 quilômetros de largura entre as ilhas de Honshu e Hokkaido, que liga o mar do Japão ao Oceano Pacífico.

Em 2022, o brasileiro realizará a etapa japonesa do desafio Oceans Seven, composta pelas sete principais travessias aquáticas do mundo: Canal da Mancha (entre França e Inglaterra), Canal de Catalina (Estados Unidos), Estreito de Gibraltar (entre Espanha e Marrocos), Canal do Norte entre Escócia e Irlanda), Canal Molokai (Havaí), Estreito de Coock (Nova Zelândia) e Estreito de Tsugaru.

A distância oficial da etapa no Japão pode chegar a 30 km devido as adversidades climáticas e da própria correnteza oceânica, relatou Utida.

Posso ser o primeiro sul-americano a concluir a prova”, disse com o tom confiante de quem já enfrentou longas distâncias em rios e oceanos nos mais de 25 anos dentro da água. “Da América do Sul, apenas um argentino tentou duas vezes (Tsugaro), porém não conseguiu completar”, contou o atleta ao Canal Japan On.

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“Sempre tive vontade de tentar completar o desafio do Ocean Sevens. E, como uma das provas é essa aqui do Japão, nada melhor do que começar por ela” (Fotos: arquivo pessoal)

O desafio é realizado de forma individual na janela climática (julho à setembro). Ondas enormes, vida marinha mortal e uma corrente tão forte que fazem poucos vencedores desse percurso. Calcula-se o tempo mínimo de 10 horas para a conclusão do estreito.

Ulisses explica que o participante deve usar somente sunga, óculos, touca e pomada corporal para auxiliar a manutenção da temperatura, já que a água poderá estar na casa dos 10º C.

Na pausa para hidratação e alimentação, o atleta não pode encostar no barco ou receber ajuda para manter sua flutuação, caso contrário, será automaticamente eliminado.

Mas aí que está a ‘graça’ das provas de ultramaratonas aquáticas; ter essa dificuldade faz com que superamos mais o limite e a prova ganhe valor”, garante o paulista de Panorama.

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PIONEIRISMOS NO JAPÃO

Desde 2019, Ulisses e a esposa, a nutricionista Janaína Utida, vivem na cidade de Kosai, na província de Shizuoka. Encaram a rotina de dekasseguis, ele numa montadora de veículos com jornada de dois turnos e Janaína numa fábrica de autopeças.

Treinando na Hamanako Swimming School, Ulisses se afiliou à federação japonesa e foi escolhido pela escola para representar a entidade numa competição master em Hamamatsu, em setembro de 2019, onde ganhou duas medalhas de ouro.

Foi feito todo um trabalho. A escola entrou em contato com a Federação em Tóquio. Foram enviadas fotos das tatuagens (primeiro atleta estrangeiro, não descendente, com tatuagens a integrar a federação). Eu demorei uns três meses para a avaliação deles, e mesmo no dia da competição de Hamamatsu, cogitava-se eu não participar das provas por causa das tatuagens.

Além de quebrar um tabu, Ulisses nadou com muita vontade de vencer mais aquele obstáculo, pois sabia que dali para seu objetivo de águas abertas em ultramaratonas poucas restrições lhe esperavam.

“Hoje sou o primeiro estrangeiro sul-americano federado para águas abertas do circuito, abrindo oportunidade para outros atletas”.

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Ulisses (então Carvalho dos Santos) casou-se em 2017 com a nutricionista pós-graduada em nutrição esportiva, Janaína Utida que o convenceu a retornar para as competições. O pedido de casamento foi feito após o término da prova ‘12 horas Noturno’ com 65km percorridos das 21h às 9h no Rio Paraná.

Sua inscrição para o Estreito de Tsugaro (no valor de 600 mil ienes) o credenciaria para realizar a prova em 2021, mas por conta da pandemia do coronavírus as travessias foram canceladas e Ulisses ganhou mais um ano para dedicar-se aos treinos – divididos entre horas na água (piscina e na praia de Arai Benten) e na linha de montagem de motores.

Comecei a usar meu trabalho como forma de treinamento. Tanto psicológico como físico. Como a linha de montagem é rápida, acabo trabalhando a parte aeróbica, concentração, e por muitas vezes eu imaginei estar nadando. Estou fazendo o trabalho e deixo no ‘automático’, tentando mentalizar a hora em que eu estiver nadando“.

Minha preparação para as ultramaratonas solo são 60% do trabalho psicológico e 40% de alimentação e trabalho de treinamento“, avalia.

VIDA NA ÁGUA, DESAFIOS DA VIDA

Nas piscinas, Ulisses sagrou-se campeão paulista nos 400 metros livre, vice-campeão paulista nos 200 metros medley, participou quatro vezes do Troféu Brasil de Natação (maior competição nacional da modalidade), foi finalista nos Jogos Abertos do Interior do Estado de São Paulo pela cidade de Santos e quinto colocado no campeonato brasileiro dos 400 metros medley.

Teve ao seu lado como técnico Ricardo Prado, prata nos Jogos Olímpicos de Los Angeles de 1984.

Ainda como profissional, Utida disputou seletivas para os Jogos Pan-Americanos do Rio (2007) e dos Jogos Olímpicos de Pequim (2008). Tentou prolongar a carreira até 2009,  porém os problemas se acentuaram culminando em depressão e posteriormente síndrome do pânico.

Ele recorda que um dos gatilhos para cair de vez em águas abertas aconteceu em um dos momentos de angústia: “Uma noite, em Santos, pisei o pé no mar de madrugada. Minha vontade era me jogar, não pra deixar a onda me levar, mas pra nadar longe, longe, longe até o Japão“.

“A MARATONA AQUÁTICA SALVOU MINHA VIDA”

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Em 2009, seu pai, Paulo Roberto dos Santos (Paulo Paranaguá), ex-atleta do Santos e recordista reconhecido pelo Guinness Book em 1997, como a primeira pessoa no mundo a nadar 140km ininterruptamente, promoveu ao lado de outros organizadores o Desafio (revezamento) da Ilha do Mel, com um percurso de 22 km.

E ao lembrar daquela prova, Ulisses resumiu: “Cada braçada que eu dava no mar eu deixava para traz aquela pessoa depressiva, sem rumo sem nada, naquela pessoa e naquele local. Acredito que o mar limpa a gente“.

Em 2010, ele concluiu também o desafio Antonina/Paranaguá e finalizou os 43 km em 10h33min. Em 2017, completou o Desafio “12 horas Noturno”, com 65 km percorridos das 21h às 9h no Rio Paraná.

Foi o ano que eu conheci a minha esposa. Já tinha parado de participar dessas provas. Estava dando aulas de natação e hidroginástica e foi ela que me incentivou a voltar. Aquela foi a minha prova mais especial. Foi muito difícil de completar o trajeto. Mais precisava chegar até o final de qualquer forma, e ao terminar pedi Janaína em casamento”.

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“Cada dia que eu passo no mar eu penso: um dia vou ser o maior nadador de ultramaratona aquática do mundo, você pode ter certeza disso. Fazer cada vez mais provas difíceis faz enriquecer minhas conquistas e a preparar o meu psicológico para a vida”.

TSUGARO E OCEAN SEVEN

Dois japoneses cravaram recordes nas águas disputadas do Tsugaro: a mais jovem a cumprir o trajeto (Honoka Hasegawa, aos 17 anos) e o mais velho (Toshio Tominaga, aos 73 anos), ambos no verão de 2016.

Quando se consolidou o circuito de ultramaratona aquática, em 2008, apenas 21 nadadores conseguiram cruzar os sete pontos, segundo dados da LongSwims Database. Desde 1990, 52 conquistaram o Tsugaru.

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Toshio Tominaga se tornou pessoa mais velha a nadar estreito de Tsugaru (Foto: Mitsuhiro Mizishima/Ocean Navi/AFP)

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